Jornais, a busca por modelos de negócios e do tempo perdido
Em 13 de Novembro, participei no auditório da Folha de São Paulo do seminário “Jornais e Internet: para onde aponta o futuro?” promovido pela Associação Nacional de Jornais. Segundo Marcelo Rech, diretor do comitê editorial da ANJ, foi a primeira vez que jornais associados se reuniram para debater a presença da “velha mídia” na internet. Pelo que se segue, eles demoraram.
O seminário foi dividido em painéis e palestras: “Integração de operações off e online: barreiras e vantagens”, “O jornal agora faz áudio e vídeo? A multimídia e a nova cultura das Redações”, “Perspectivas de manutenção do modelo editorial offline no mundo online”, “Sites abertos ou fechados. Quem vence a queda de braço?” e “De onde virá o dinheiro para bancar a qualidade editorial?”.
A seguir compilei minhas anotações durante o evento (menos da palestra sobre modelo offline, quando dei uma volta pela Folha Online para conhecer o sistema de gerenciamento de conteúdo e a atual organização da redação) seguidas de observações sobre como entendo a internet e o jornalismo hoje.
Integração de operações off e online: barreiras e vantagens
Com coordenação de Vaguinaldo Marinheiro, Secretário de Redação da Folha de São Paulo.
Marta Gleich, Diretora de Jornais Online RBS
- há crescimento de circulação e de receita dos jornais impressos, segundo a PricewaterhouseCoopers - o relatório da Price é pago, o acesso é limitado, mas na introdução diz: “In Latin America, the emergence of broadband will attract people to the Internet and lead to slower growth in unit circulation and in circulation spending compared with the past two years.” Números da ANJ confirmam.
- transformar o online em mais um meio de distribuição de conteúdo e negócios;
- conteúdos de texto, espaço ilimitado e novas mídias como complemento do que é impresso;
- mais interação com fontes, que ficam mais ativas, e publicação de material perdido pela falta de espaço no papel;
- uso de novos recursos móveis para criação de conteúdo multimídia;
- reação do público como recompensa do trabalho jornalístico;
- criação de infográficos para o site com animação em flash;
- o online não pode ser visto como intruso na redação, repórteres que fazem o online são valorizados em relação aos que não fazem;
- o impresso se torna veículo de contextualização, não de breaking news;
- treinamento para jornalistas do impresso na técnica de fazer vídeos e áudio.
Marco Chiaretti, Editor Chefe de Conteúdo Digital do Grupo Estado
- fase de integração já deveria ter passado desde o fim da década de 90;
- ligação intensa com o leitor e alta capacidade de mesurar a reação às notícias;
- para Marco, não há mais a sensação de desintegração, mas a preocupação em expansão da web e desenvolvimento de talentos;
- a visitação do online, em audiência, é igual ou superior à grandeza do impresso;
- a taxa de faturamento da internet cresce mais que a do jornal impresso, o que obriga a integração;
- jornalistas do online trabalham em conjunto com o do offline;
- as pessoas passam, hoje, o dia inteiro em frente de uma banca de jornais;
- criação de versões mobile;
- o mobile é para notícias rápidas, a web para completude da matéria e o impresso é análise.
Ana Lucia Busch, Diretora Executiva da Folha Online
- as transformações mudam o que conhecemos como mídia;
- divisão entre produtor e leitor cada vez mais tênue;
- o leitor como produtor;
- respostas individuais para as mensagens dos leitores;
- derrubar o mito do texto curto como verdade. O leitor lê o material bem feito, seja de que tamanho for (já escrevi sobre isso aqui);
- fazer jornalismo é mais barato, mas ainda requer investimentos pesados, especialmente em mão-de-obra especializada;
- treinar as pessoas para fazer conteúdos diversificados;
- bom jornalismo é jornalismo contextualizado, por isso o conteúdo multimídia;
- a publicidade tem sido tão lenta quanto o jornalismo na adoção da internet como meio;
- 40% da audiência é para arquivos;
- investir em tecnologia e gerenciamento de conteúdo. Aqui Ana enfatiza a importância de técnicas que facilitem que os arquivos sejam encontrados pelos serviços de busca, o velho e conhecido SEO.
As opiniões e observações de Marco Chiaretti refletem a diferença brutal entre os jornalistas que começaram a trabalhar com internet no período pré-bolha, entre 1998 e 2001, e os que se mantiveram afastados, ou ignoraram a web, por motivos vários. Marco começou a trabalhar no UOL em seu período inicial, onde os choques culturais e de necessidades entre redações eram naturais. Para suportar o desprezo dos mais tradicionais, conta ele que aprendeu a imaginar-se um lêmure frente aos dinossauros do jornalismo impresso. O primeiro sobreviveria, os outros entrariam em franco processo de extinção. Não foi rápido como todos imaginaram (principalmente os lêmures) e pouco menos de uma década depois ainda se discute a integração das redações on e off, um assunto que para os sobreviventes já deveria ter sido encerrado há muito tempo.
Nos depoimentos de todos que participaram no painel, percebe-se uma tendência - que como disse Marta Gleich é menos uma escolha e mais uma imposição da realidade de público e de mercado - de uma total unificação das redações e de funções que antes não faziam parte do rol de profissionais do jornalismo offline, como programadores, webdesigners e ilustradores com conhecimento em técnicas de animação. Profissões que antes seriam vistas como parte dos setores de suporte e informática, hoje contribuem diretamente na produção e veiculação de conteúdo, o que leva a uma mudança não apenas em como as empresas organizam seus quadros, mas no próprio perfil de tais profissionais, cada vez mais cobrados para desenvolverem uma visão mais ampla de tecnologia que vá além do beabá dos códigos. Mudança de perfil que também ocorrerá nos papéis dos repórteres, editores e fotógrafos, constantemente treinados (e incentivados) em novas linguagens de apresentação de informação que ultrapassem os limites do texto e da imagem estática para oferecerem ao leitor a maior gama possível de dados e contextualizações da notícia. Novas também serão as formas de apuração.
Uma observação de Ana Lucia Busch, no entanto, deixa claro o principal motivo pelo “atraso” na integração total: jornais, assim como empresas estabelecidas em qualquer ramo (como o publicitário), correm menos atrás de inovações e mais de certezas. No confroto com a web, que é viva e em constante transformação, a mídia tradicional, como qualquer outro ramo, estará sempre um passo atrás. Depois da integração esta será a grande dificuldade, como estar sempre no topo de uma plataforma com mudanças tão rápidas e fundamentais como é a internet. Enquanto no jornal uma impressora dura 30 anos sem necessidade de troca, já que cumpre com a tarefa proposta e há mão-de-obra especializada abundante, em 30 anos a internet saiu dos redudos universitários americanos e europeus, passou pelas BBSs em terminal de texto, inaugurou a World Wide Web até chegar ao patamar atual em que o usuário comanda seu universo, a Web 2.0.
Jornal agora faz áudio e vídeo? A multimídia e a nova cultura das Redações
Com coordenação de Roberto Gazzi, Editor Chefe do Estado de São Paulo.
Rachel Almeida, Editora Executiva do Globo Online
- atenção com títulos mais específicos voltados para sistemas de busca (SEO);
- dar importância ao hipertexto nas matérias e inclusão de formas de compartilhamento.
Josemar Gimenez, Diretor de Redação do Estado de Minas e Correio Braziliense
- existem impedimentos trabalhistas para a multimídia. Leis e sindicatos limitam e pressionam contra a contratação de pessoal multimídia e de jornalistas que trabalhem com várias mídias ao mesmo tempo;
- os jornais ainda sentem dificuldade em lidar com o leitor como produtor de notícias;
- grandes investimentos e falta de rentabilidade dificultam a convergência;
- mudança radical no perfil de contratação para encontrar um modelo em se equilibre profissionais com DNA de internet e jornalistas mais experientes;
- Josemar citou o caso do Daily Telegraph, que integrou totalmente as redações e aceitou a perspectiva de abandonar o impresso;
- criação de selos para identificar no impresso as matérias de convergência;
- interatividade com rádio. Parte do produzido pelas emissoras é aproveitado pelo jornal na web.
O profissional multimídia é uma raridade e o próprio fluxo das redações impede seu desenvolvimento. Um repórter com três ou quatro pautas diárias, dificilmente terá tempo para, além do texto, editar áudio e vídeo, criar slideshows ou sentar com um designer para a criar um infográfico. É uma questão prática. Mesmo dentre aqueles que saem das universidades com web no DNA, é virtualmente impossível produzir qualquer conteúdo mais completo (mesmo que apenas texto, diga-se) em redações pequenas e com sobrecarga de pautas. Ou se opta por qualidade ou por quantidade. É um problema anterior à web.
O desafio trabalhista é apenas um reflexo dessa sobrecarga. Não se combate apenas o trabalho para dois veículos (mesmo porque essa dualidade está desaparecendo com a integração), mas o aumento constante de produção sem reflexo em cargos e salários. Aqui a culpa não é da web, embora ela tenha surgido para colocar mais lenha na fogueira, mas da quebra de braço histórica entre jornalistas e empresas, entre a produção baseada em quantidade e a acorada em qualidade. É uma sinuca de bico que só se resolve com muita negociação como todo e qualquer relacionamento trabalhista.
A solução para a multimídia? Mais contratações de profissionais especializados, não só responsáveis pelas próprias funções mas também pela criação de cultura em áreas mais resistentes, investimento em tecnologia móvel e, sobretudo, na busca constante em desenvolver ou encontrar web no DNA das pessoas. Precisa-se encontrar cérebros que trabalhem em camadas múltiplas, não bidimensionalmente como tem sido até hoje.
Quanto ao fim do papel, hipótese levantada não só pelo Daily Telegraph mas também pelo New York Times, que já anunciou a possibilidade de acabar com o papel em 2008, as empresas jornalísticas, mais precisamente as do jornal impresso, notam que seu negócio não é vender uma plataforma, mas informação, distribuível atualmente por dezenas de meios. Essa percepção cria uma outra encruzilhada, traduzida em imposição do mercado: ou se mantém a estrutura atual, centralizada na plataforma física e na distribuição idem, cujas naturezas são obviamente limitadas, ou adota-se a postura expansionista de colocar-se disponível para leitores e clientes nas tecnologias virtuais, mais rápidas, ágeis e multimeios. Por que é uma imposição de mercado e não uma escolha? Porque os primeiros serão esquecidos por toda uma geração que, como disse Marco Chiaretti no primeiro painel, passa o dia inteiro em frente de uma banca de jornais.
Sites abertos ou fechados. Quem vence a queda de braço?
Com coordenação de Arlen Medina, Diretor Geral de Jornalismo do Grupo de Comunicação O Povo.
Márcio Calves, Editor Chefe de A Tribuna e Expresso Popular de Santos
- para Márcio, deve-ser fechar o conteúdo da versão impressa no online, mas deixar aberta a área de notícias de última hora;
- houve pressão dos leitores e anunciantes dos classificados para abertura;
- presentearam os leitores com um mouse e um teclado como prêmio para quem assinasse anualmente;
- colocaram o virtual paper;
- Márcio considera o fechamento uma revolução;
- o preço da assinatura: R$ 39 por mês;
- as assinaturas cobrem os custos do online.
Antonio Carlos Leite, Diretor de Redação da Gazeta, Notícia Agora e Oportunidades da Rede Gazeta, no Espírito Santo
- o portal reabriu o site por pressão do público;
- o portal vai incentivar o jornalismo comunitário;
- pesquisas indicam que nas novas gerações, não existe o conceito de informação paga.
Conteúdos fechados ou abertos são apenas modelos de negócios, que podem ou não funcionar a depender do mercado. Não há regras claras para fazer o fechamento funcionar assim como não há para o aberto, mas existem indícios e certas estratégias comuns entre os jornais que fecharam. Parte deles prefere fechar a versão do impresso que vai para a internet e manter abertas as notícias de última hora, ou seja, imagina-se que as breaking news podem ser gratuitas enquanto o material supostamente mais completo deve ser pago. Modelos com assinaturas também tendem a funcionar melhor quando existe apenas um veículo em um determinado nicho, nos portais regionais, caso da Tribuna, isso não é diferente. Se em uma cidade ou estado existe apenas um veículo, fechar pode ser um bom negócio para a empresa, embora sempre, em qualquer cenário, seja ruim para o leitor. É sempre um terreno movediço, imprevisível. Na dúvida, não faça, recuperar a audiência e a importância da marca é mais complicado e abre-se espaço para concorrentes abertos. É uma decisão que deve ser tomada com cautela e com profundo conhecimento do público. Melhor ouvir os leitores antes, jamais depois.
E, bom lembrar, hoje se encontra informação de todos os tipos em qualquer lugar, jornais digitais são apenas uma parcela mínima do universo que é a internet, ou seja, o próprio jornalismo, em toda a sua complexidade, é nicho. Quem vive no mundo dos blogs sabe bem disso, quem conhece fóruns de discussão especializados também, até quem navega no Orkut e tem relativo conhecimento de como usá-lo eficientemente consegue informações que a mídia tradicional dará com dias de atraso. Para quem domina RSS, todo esse processo é tão fácil quanto abrir um navegador. Ou os veículos se transformam em referência para esse público cada vez mais “safo”, o que não será feito com a cobrança já que todo o resto é gratuito, ou a corrida pelo tempo perdido será mais dura e cheia de obstáculos. Fechar o conteúdo, hoje, é o maior risco que um veículo pode querer para si.
De onde virá o dinheiro para bancar a qualidade editorial
Com coordenação de Carlos Alberto di Franco, Diretor Master em Jornalismo.
Walter de Mattos Junior, Diretor Presidente do Grupo Lance!
- a abertura do conteúdo do New York Times e do Wall Street Journal indicam uma mudança de paradigma;
- os modelo de portais é essencialmente brasileiro, inexiste em outros países;
- vantagens da web: 1) intervenções publicitárias com altos níveis de precisão na medida de resultados; 2) a web é ágil; 3) não tem custos de produção elevados; 4) grande capacidade de absorver inovações; 5) estimativas de crescimento na publicidade para web são superiores aos de outras mídias;
- as regras de competitividade das velhas mídias podem não ser válidas para a nova;
- não se tem no mundo online um modelo que sustente a qualidade do conteúdo como se tem no papel;
- desafios: valorização das marcas; posicionamento; qualidade dos conteúdos; controle de custos (há de se dominar tecnologias); os desafios são inexoravelmente multimídia; blogs com conteúdos colaborativos dentro de um código de ética definido pelo valor da marca; é estratégico para as empresas jornalísticas online dominar também a publicidade online; haverá ainda uma longa discussão sobre proteção de direitos autorais; atenção para a mobilidade; quanto menos nicho menor a possibilidade de um modelo lucrativo.
Não existe uma resposta certa para a pergunta. Ponto. Simplesmente não existe. Enquanto nos impressos se convencionou vender informação para os leitores e leitores para os anunciantes (o mesmo acontece com métodos diferentes no rádio e na televisão), na web esse modelo pode ou não funcionar. É bater a cabeça, testar práticas, reinventar-se constantemente. A pessoa que souber responder essa pergunta com uma fórmula líquida e certa será lembrada nos livros de história. E, quem sabe, em um futuro negro, haja apenas conteúdo, sem qualidade e pronto.

































