House é o Power Rangers do mundo adulto

2007 Fevereiro 17
by Leonardo Fontes

Gregory HouseO grande mérito de séries como Power Rangers e Jaspion para as crianças é a repetição narrativa, é o que explica elas assistirem milhares de vezes o mesmo filme. Meu filho, Pedro, hoje com 11 anos, viu centenas de vezes Toy Story, de capa nas costas e gritando “ao ifilito e além”, quando tinha 3. Eu via junto, até hoje sei trechos decorados.

A repetição é importante para o desenvolvimento cognitivo, é quando as crianças aprendem todo o vocabulário presente no filme e começam a entender nuances de personalidade e humor - quem é bom, quem é mal, quando alguém está triste ou alegre, etc.

Séries como Power Rangers e Jaspion tem a mesma função, não que uma criança veja sempre o mesmo episódio, mas porque todos os episódios têm exatamente a mesma estrutura narrativa. No caso do Power Rangers, que conheço melhor, o roteiro é monótono.

  • os mesmos heróis, bandidos e vítimas (no caso, o resto do mundo);
  • os bandidos querem dominar o mundo e criam um monstro de laboratório, que vai gerar o terceiro elemento narrativo;
  • um problema ecológico que mata as vítimas;
  • os Power Rangers entram na luta e matam o monstro;
  • os bandidos ressuscitam o monstro, mas na versão gigante dele;
  • os Power Rangers usam toda a sua tecnologia e espírito colaborativo para criar um robô gigante;
  • depois de uma luta com papel crepom voando por todo lado, o robô mata o monstro gigante e o resto do mundo é salvo.

Variações acontecem. Os monstros são diferentes, os problemas ecológicos também e existe um suposto senso de humor em conversas na escola (as identidades secretas dos Power Rangers são estudandes secundaristas) em que os alvos do ridículo são um gordo e um magro. Tem um robô meio gay também.

House, assim como Monk, ambos da Universal, não estão longe dos Power Rangers como estrutura narrativa e função para o espectador.

Em House:

  • os mesmos heróis, bandidos e vítimas: como a audiência tem mais repertório, esses elementos se confundem o tempo todo.
  • o vilão: pode ser a doença, o paciente, os agregados do paciente, os médicos auxiliares ou a estrutura administrativa do hospital. Geralmente é tudo ao mesmo tempo agora;
  • o herói: é sugerido, em todos os momentos, Gregory House como vilão. Mas é papel crepom, intuito de criar um anti-herói que não se sustenta, porque no final, ele sempre está certo;
  • o insight, a eureka, a epifania, o momento de revelação do herói em que a solução do problema crucial é clara, é a consagração;
  • a derrota do vilão

Como em Power Rangers, House também tem seus efeitos especiais nas brigas, debates, sarcasmos, ironias e azedume. A série é feita para criar um anti-herói, uma criatura cheia de defeitos - House usa bengala, Monk é um maníaco, mas ambos são, no fundo no fundo, bons e simpáticos para a audiência.

Para a criança, a repetição narrativa serve de aprendizado, é exercício de descoberta. Para os adultos é reconhecimento de indentidade, empatia no reflexo, não deixa de ser cognitivo. Pode ser inteligência e humor, mas só entre os saudáveis. Para os que vestem os personagens e atuam como tal, é afirmação de qualidades e defeitos, é documento assinado, é “eu sou assim porque House é assim”.

Hoje vejo Monk, House e Huff, mas não me sinto muito diferente de quem vê Pokemon. Nada substitui uma digievolução.

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