Estação das Brumas, Neil Gaiman
O quarto volume da coleção da série Sandman, de Neil Gaiman, lançada no Brasil pela Conrad, engloba 9 revistas que circularam originalmente no final de 1991 e início de 1992. Desta vez, os episódios começam em torno do resgate de Nada pelo Moldador.
Morpheus, arrependido da decisão de condenar Nada a 10 mil anos de sofrimento no Inferno, decide redimir-se do erro e enfrentar Lúcifer em uma batalha para libertá-la. Embora o roteiro comece com esta busca, a grande história é a desistência de Lúcifer em ser o Príncipe das Trevas. Ele renuncia ao Inferno e entrega a Morpheus as chaves do reino.
Como sempre, Sandman é uma grande leitura. Sombria, eventualmente bem-humorada, culta e que tem como palco o universo muito próprio criado por Gaiman, com leis, regras divinas, demiurgos, demônios, deuses, anjos, elfos, ética e moral específicas. Para não repetir o que já escrevi sobre o assunto aqui neste blog, leia os posts sobre a Terra dos Sonhos, Os Caçadores de Sonhos e Prelúdios e Noturnos.
Duas coisas me chamaram a atenção neste volume.
A primeira são as interpretações de Lúcifer. Gaiman o moldou como um anjo caído cansado, de saco cheio daquele trabalho fatídico e dos levantes sazonais entre os demônios subalternos para demovê-lo do trono. Um Lúcifer destituído de esperanças em retornar à casa do Pai, o próprio símbolo perene para o verso shakespereano que alerta que “quando ele cai, ele cai como Lúcifer, para nunca mais ter esperança” (Henrique VIII).
Além da identidade psicológica concebida por Gaiman, os ilustradores imprimem, em cada episódio, sua versões físicas da Estrela da Manhã (é este o significado do nome Lúcifer). É de chamar a atenção, em particular, a versão de George Pratt no Epílogo, claramente inspirada em um jovem David Bowie.
A segunda é a citação da frase “antes reinar no Inferno que servir no Céu” (better reign in Hell than serve in Heaven), cunhada por John Milton, em Paradise Lost. O crédito a Milton não esté incorreto (a frase, como está, realmente é dele) mas está pela metade. A frase, em outras formas e até com outros sentidos, vem de muito antes de Milton.
Aquiles, na Odisséia do velho e cego Homero, diz durante a visita de Ulisses ao Hades, “prefiro servir na casa de um homem pobre e estar acima do chão a reinar dentre os mortos” (Livro XI). Mais de dois mil anos depois, em 1654, Joost van der Vondel, no drama chamado Lúcifer, discorda de Aquiles e diz “melhor ser príncipe de uma corte inferior que segundo, ou menos, na luz da beatitude”. Paradise Lost foi publicado, pela primeira vez, em 1667, 13 anos depois de Vondel discordar de Aquiles.
Milton (e Gaiman), assim como Isaac Newton, subiu em ombros de gigantes antes de fazer um trabalho de gigante.


































